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Redação Sportsfera
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Vitória de Ronaldo no B.O.A.T. mostra quem vende votos, não quem é o maior

A votação paga da France Football coroou a temporada 2008 de Ronaldo como a melhor Bola de Ouro da história, mas mede alcance e lealdade; o debate do GOAT pede critérios, não enquetes.

Publicado
29 de outubro de 2026
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4 min
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Foto: Anish Morarji from St Albans, England / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O que exatamente aprendemos na quarta-feira, quando manchetes do mundo todo anunciaram que Cristiano Ronaldo havia sido eleito o melhor vencedor da Bola de Ouro de todos os tempos? Pouca coisa sobre futebol. Aprendemos bastante sobre como uma torcida se comporta quando se coloca um botão de pagamento ao lado do nome do seu ídolo.

O que realmente aconteceu (e o que as manchetes embaçaram)

A France Football lançou uma nova seção chamada B.O.A.T., "Ballon d'Or of All Time", um trocadilho com G.O.A.T. Segundo o Relvado, a própria revista fez questão de dizer que não se trata de um prêmio oficial nem de uma segunda Bola de Ouro. Os fãs não escolheram o melhor jogador da história. Escolheram a melhor temporada vencedora entre jogadores que haviam conquistado o troféu pelo menos duas vezes. A campanha de 2008 de Ronaldo no Manchester United ficou em primeiro, à frente da de Messi em 2012 e da do próprio Ronaldo em 2017.

O funcionamento importa. Cada voto custava um euro, e os votantes concorriam a dois ingressos para a cerimônia de 2027. Era permitido votar várias vezes, inclusive em jogadores diferentes. A France Football informou que 5.009 pessoas votaram mais de uma vez, e 44 delas fizeram isso entre 10 e 26 vezes. O número total de votantes nunca foi divulgado, então os percentuais refletem votos pagos, não pessoas. Em 20 de outubro, a temporada de 2008 já liderava com 75%, contra 9% da temporada de 2012 de Messi.

Uma enquete em que dá para comprar espaço é um produto de engajamento de fãs, não um veredito

Vamos chamar as coisas pelo nome: um produto de engajamento de fãs com um chamariz em forma de troféu. Isso não é acusação de fraude. É uma descrição do desenho. Quando uma votação é aberta a qualquer pessoa, pode ser repetida e tem preço por voto, o resultado acompanha sobretudo uma coisa: quem tem mais gente motivada disposta a clicar de novo. Na nossa visão, isso mede alcance e devoção, e nesse critério a base global de seguidores de Ronaldo é formidável. Ninguém deveria se surpreender.

Até a CNN Brasil observou que o prêmio significa pouco, apontando que Ronaldo tinha uma vantagem enorme muito antes de o vencedor ser anunciado. Uma disputa tão desequilibrada desde cedo não é um debate. É uma mobilização.

Há também uma peculiaridade estrutural. Como detalha o Lance!, muitas das temporadas de Ronaldo e Messi ficaram nas primeiras posições da tabela, e a de Ronaldo Nazário em 2002 foi a primeira de fora da dupla, na 13ª colocação. Quando dois superastros modernos entram com muitas temporadas cada um, eles dividem e dominam a cédula, e nomes como Cruyff, Beckenbauer, Platini e Di Stéfano terminaram todos fora do top 12. Isso diz menos sobre a qualidade dessas carreiras do que sobre quem estava vivo na memória, e nos feeds das redes sociais, de quem votava.

A temporada de 2008 é uma boa escolha, o que piora o método

Aqui está a parte incômoda para os cínicos: 2008 é uma escolha defensável. Naquele ano, Ronaldo ganhou a Premier League e a Champions League com o Manchester United, marcou 42 gols e conquistou sua primeira Bola de Ouro, como relata o Relvado. Uma pessoa razoável poderia defendê-la como o auge de uma grande carreira. Mas um vencedor defensável vindo de um processo falho não valida o processo. Até relógio parado acerta a hora duas vezes por dia.

Como seria um debate melhor? Achamos que ele precisa de critérios declarados antes de qualquer voto: o quanto o jogador dominou em relação aos demais naquele ano, o que ele ganhou, quanto tempo durou o auge e quanto da sua produção se sustenta entre épocas e ligas. Dê o peso que quiser a cada item. Os partidários de Messi vão pesar de um jeito e os de Ronaldo de outro, e esse é o ponto: o argumento só é interessante quando as pessoas precisam defender seus pesos. Um botão de um euro permite que todo mundo pule essa etapa.

Há ainda uma ironia incômoda. A Bola de Ouro oficial é decidida por um júri de jornalistas. A France Football, numa edição comemorativa, escolheu entregar a decisão a quem estiver disposto a pagar para falar mais alto. Preferimos sempre o júri imperfeito ao voto pago.

Nosso veredito

Aproveite a nostalgia, porque 2008 foi uma grande temporada, mas não cite essa enquete em nenhuma discussão com a qual você realmente se importe. Se o seu lado vence uma votação em que 44 pessoas depositaram entre 10 e 26 votos cada uma, você aprendeu o quanto o seu lado é organizado. Se perde, aprendeu a mesma coisa. A questão do GOAT merece um referencial que se possa debater. Uma página de pagamento não é um.

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