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Redação Sportsfera
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Mea culpa de Paquetá no Flamengo: até clube rico paga por aposta ruim

Bap admite que a compra de Paquetá não sairia com o que o clube sabe hoje. A lição real não é sobre um reforço, mas sobre montar orçamento com dinheiro que você não controla.

Publicado
29 de outubro de 2026
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4 min
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Foto: Валерий Дед / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

O que acontece quando um clube que gasta como gigante descobre que orçou como apostador? O Flamengo acaba de nos dar a resposta, e ela veio com algo raro no futebol: um dirigente dizendo em voz alta que uma contratação de peso provavelmente não deveria ter acontecido.

Na quarta-feira, 28 de outubro, o Conselho de Administração do Flamengo aprovou a revisão do orçamento de 2026. O plano original previa um superávit de R$ 180 milhões. O novo projeta um déficit de R$ 40 milhões, depois de o clube aumentar os gastos e acumular decepções dentro de campo.

A reunião funcionou também como confissão. Segundo a imprensa brasileira, o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, reconheceu que a compra de Lucas Paquetá não teria seguido adiante se a diretoria soubesse da medida provisória que acabou com as apostas no Brasil. O Flamengo também projeta vendas em 2027 para fechar as contas. Semanas antes, Bap já havia colocado o problema em termos duros: alertou para um impacto de cerca de R$ 400 milhões na receita de 2027 por causa do fim das bets e perguntou como iria pagar Paquetá em janeiro.

O defeito não é o impulso, é a dependência

A narrativa arrumadinha é a de que um clube rico se apaixonou por uma estrela e a conta chegou. Achamos que isso só está meio certo, e na metade menos interessante. Nada do que vimos indica uma compra feita por pura emoção. O que se vê é algo possivelmente pior: uma contratação, estimada em R$ 315,6 milhões por um veículo brasileiro, cuja viabilidade parece ter dependido de uma fonte de receita que uma medida provisória podia desligar (e desligou).

Essa é a lição de verdade. Impulso é defeito de caráter. Risco de concentração é defeito de planejamento. Um clube pode ser perfeitamente racional em relação a um jogador e ainda assim imprudente com o financiamento por trás dele. Quando Bap diz que o negócio não teria saído com outras informações, ele admite, implicitamente, que o risco era conhecível em natureza, ainda que não em detalhes: receita de um setor sob pressão regulatória é alugada, não própria.

Vamos além. Chamar isso de choque externo alivia demais a barra do clube. Risco regulatório no setor de apostas é exatamente o tipo de coisa que um comitê financeiro deve descontar das projeções, e, se o Flamengo se apoiou nessa receita para um compromisso grande, tratar a proibição como surpresa é, a nosso ver, uma escolha, mesmo que ninguém a tenha enxergado assim na época.

O plano de vendas é a fatura, e o torcedor deve lê-lo assim

É aqui que o argumento da disciplina fica interessante. A própria comunicação do Flamengo destaca que a receita recorrente no orçamento revisado de 2026 é 20% maior que a de 2025. Isso não é um clube em apuros. É um clube que cresce rápido e ainda assim não bate a meta, e é justamente por isso que a confissão importa: o problema não é pobreza, é a distância entre ambição e controles.

Então, quem paga? Não os dirigentes. Suspeitamos que a fatura caia no elenco. Se as vendas planejadas para 2027 envolvem jogadores, como costuma ser, algum atleta, provavelmente um de quem a torcida gosta, vai embora por motivos que nada têm a ver com o gramado. Esse é o custo oculto de uma grande compra feita com margem financeira apertada: ela cobra imposto sobre as decisões futuras de elenco. Os fracassos esportivos desta temporada pioram o aperto, porque um ano ruim provavelmente enfraquece tanto a receita ligada a títulos quanto o poder de barganha do clube na hora de vender.

Também vale notar o que merece crédito em Bap. Muitos dirigentes defendem uma contratação de peso até a morte, porque recuar parece admitir que o projeto inteiro é frágil. Reconhecer que você não teria feito o movimento com melhores informações é desconfortável e, a nosso ver, saudável. O mea culpa é melhor governança do que foi a compra.

Teste de estresse na aposta, não na estrela

O Flamengo não é uma história de alerta sobre um clube que se deixou levar por um nome famoso. É uma história de alerta sobre um clube que deixou sua maior aposta depender das regras de outra pessoa. A solução não é parar de comprar estrelas. É submeter cada compromisso grande a um teste de estresse que simule a perda da sua fonte de receita menos estável, e aprová-lo apenas se o clube sobreviver a esse cenário sem vender às pressas seus melhores ativos.

Vamos acompanhar 2027 de perto. Se as vendas vierem como um reajuste planejado, o Flamengo terá transformado uma admissão constrangedora em lição. Se vierem como saídas de emergência, a fatura de Paquetá terá sido apenas a primeira.

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