A gripe de Courtois não criou o problema do Real Madrid no Clássico: ela o expôs
Perder Courtois horas antes do Camp Nou dói, mas o verdadeiro problema do Real de Mourinho é a pouca margem diante de um Barcelona que ainda não perdeu pontos.
Foto: Netol / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
É azar quando uma gripe derruba seu goleiro na manhã do Clássico, ou é a conta de decisões tomadas meses antes? Nós nos inclinamos para a segunda leitura. Doença é aleatória. Chegar ao Camp Nou com tão pouca margem de erro, não.
O Real Madrid confirmou no domingo que Thibaut Courtois é baixa de última hora por causa da gripe, e o jovem goleiro Illia Voloshyn, de 19 anos, foi convocado em seu lugar, como informa a India Today. Andriy Lunin é o substituto esperado. O Barcelona lidera LaLiga com 27 pontos, fruto de nove vitórias em nove jogos; o Real é o terceiro, com 21. Uma vitória do Barça hoje à noite amplia a diferença para nove pontos, e uma vitória do Real a reduz para três.
O pânico com Courtois é em parte efeito de reputação
O instinto é dizer que o Real perdeu sua rede de proteção. É assim que boa parte da cobertura soa, e entendemos o motivo: o histórico de Courtois em jogos grandes faz parte da mitologia do clube. Mas os números da temporada são menos lisonjeiros. O Tribal Football observa que ele jogou 12 vezes nesta temporada, sofreu 14 gols e deixou o gol invicto apenas duas vezes.
Esse não é o perfil de um goleiro que sustenta sozinho um time. Parece mais um time cuja defesa já vazava, com um goleiro cuja reputação cobre mais do que suas estatísticas. Então a tese de que a solidez do Real de Mourinho depende de um só homem precisa de nuance. Achamos que a dependência é mais psicológica do que estatística, e isso é, possivelmente, um problema maior. Quando a confiança de um time se apoia em um nome, a ausência dele parece um colapso, mesmo que os números de base já estivessem instáveis.
O retrospecto de Lunin é nota de rodapé, não veredicto
Lunin não disputou nenhuma partida oficial nesta temporada, e o Madrid Universal lembra que ele sofreu oito gols em quatro jogos contra o Barcelona sem nunca ficar com o gol invicto, incluindo a derrota por 4 a 0 no Bernabéu em outubro de 2024. O site também observa que o Real venceu três desses quatro jogos.
Não colocaríamos essa conta nele. Oito gols em quatro jogos dizem tanto sobre o ataque do Barcelona quanto sobre um goleiro, e quem não disputou nenhuma partida oficial nesta temporada não pode ser julgado por jogos de dois anos atrás. Se Lunin for mal hoje à noite, provavelmente será porque os jogadores à frente dele lhe deram trabalho demais. Se for bem, isso também dirá pouco sobre a profundidade do elenco do Real, porque uma noite não prova nada.
A margem é a história
Eis o que achamos mais importante do que o goleiro. O Real também não tem Vinícius Júnior, suspenso (quatro jogos de suspensão após a expulsão contra o Villarreal), além de Rodrygo e Raúl Asencio, lesionados, segundo o Demócrata. O Tribal Football acrescenta Ferland Mendy a essa lista. Do outro lado, o Barcelona chega como melhor ataque de LaLiga, com 39 gols em nove rodadas, muito para um time que também tem buracos.
Esses buracos são reais. O Barça não tem Dani Olmo, Jules Koundé, Eric García, Andreas Christensen e Roony Bardghji, e perdeu por 4 a 2 para o Paris Saint-Germain no meio da semana. Ninguém deveria chamar este time de invencível. Mas o contraste é o que importa: o Barcelona consegue absorver desfalques porque tem seis pontos de vantagem e vence toda semana. O Real não consegue, porque cada desfalque vem acompanhado de uma briga pelo título.
É aqui que a volta de Mourinho fica interessante. Ele foi contratado em 2010 para enfrentar o Barcelona de Guardiola, venceu apenas um de seus 10 primeiros Clássicos e terminou a primeira passagem invicto em cinco jogos contra os catalães. Seu histórico sugere que ele aprende a vencer esse rival devagar e sendo pragmático. Mas o Real perdeu seis dos últimos sete Clássicos, e o clube teve um início irregular, com duas derrotas no campeonato em nove jogos e vaias da própria torcida. Pragmatismo precisa de uma base, e hoje à noite essa base é um goleiro reserva, um ataque remendado e um garoto de 19 anos convocado como reserva.
Nosso veredicto
A gripe de Courtois é uma desculpa que o Real vai se sentir tentado a usar e não deveria. Se perder, a explicação não é um goleiro ausente; é um elenco que, mesmo depois de um verão movimentado, não tem folga na noite mais importante do outono. Se ganhar, será o melhor argumento até agora de que o projeto Mourinho é mais sólido do que o início sugeria.
Esperamos que o Barcelona seja o favorito e que o Real seja perigoso principalmente se o jogo tiver poucos gols, o que é um palpite e nada mais. O que acompanharíamos não são as defesas de Lunin, mas quantas chances claras a defesa do Real vai permitir que ele enfrente. Esse número, mais do que a gripe, dirá se foi uma noite ruim ou uma falha estrutural.
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