A Globo quer o Pan de volta, e a CazéTV é a razão disso
Após 20 anos fora, a Globo estaria perto de fechar os direitos do Pan de 2027. O caso mostra como o streaming reprecificou os esportes do ciclo olímpico, mas apontar a Record como derrotada é precipitado.
Imagem gerada por IA
Três anos atrás, a Globo olhou a conta dos Jogos Pan-Americanos e desistiu. Agora, ela estaria perto de fechar a edição de 2027. O que mudou? Para nós, a resposta é um canal do YouTube.
O que está na mesa
Segundo o colunista Rodrigo Mattos, do UOL, a Globo tem um acordo avançado para voltar ao Pan, que será disputado em Lima. O negócio dividiria os direitos com o Comitê Olímpico do Brasil (COB). A Globo exibiu os Jogos pela última vez em 2007, no Rio de Janeiro. A Record ficou com eles de 2011 a 2019, e em 2023 as provas passaram apenas na CazéTV e no Olympic Channel, do COB.
Nada está fechado. Como observa o RD1, a Panam Sports não anunciou nenhuma venda. A CazéTV e a ESPN também foram convidadas a apresentar propostas, e a estrutura final de canais e plataformas não está confirmada.
A recusa de 2023 é a verdadeira história
O detalhe mais revelador é mais antigo. De acordo com uma coluna reproduzida pelo Diário de Cuiabá, a Panam Sports pediu à Globo US$ 10 milhões pelos direitos de 2023. O valor tomava como referência o que a Record havia pago. A Globo recusou porque julgou que um torneio com pouca chance de render audiência não valia o investimento. O COB então comprou os direitos por menos da metade desse preço e se associou a uma CazéTV que ainda estava começando. O Pan saiu da TV aberta pela primeira vez desde 1995.
Parece um caso de manual de mercado de direitos sem concorrência. Quando um comprador diz não, o vendedor não tem a quem recorrer. Na nossa visão, a lição que a Globo aprendeu é que um evento que ela não achou que valia o preço passa a valer no momento em que um rival faz ele funcionar.
A CazéTV mudou a conta, mesmo sem vencer
Mattos afirma que, em Paris 2024, a Globo enfrentou a concorrência da CazéTV, que teve ótimos números e bom engajamento com os atletas. Desde então, a Globo tem dado mais espaço aos esportes olímpicos em seus programas, com mais flashes e resultados, o que, segundo ele, cria a percepção de um canal olímpico. A parceria anunciada pela Globo na COB Expo, que segundo uma reportagem vai até 2032, faz parte do mesmo pacote.
Na nossa leitura, os esportes do ciclo olímpico eram um custo. Agora são um ativo defensivo. Mesmo que o Pan nunca supere uma partida de futebol em audiência, ter os direitos evita que um streamer gratuito e popular fique com os atletas que os brasileiros vão acompanhar em Los Angeles 2028. Algumas disputas em Lima também valem vaga olímpica, o que faz dos Jogos um celeiro para essa narrativa.
O enquadramento de "TV aberta contra streaming" também é um pouco arrumadinho demais. O acordo em discussão é conjunto com o COB, e a ideia relatada por trás da venda é uma negociação conjunta entre televisão e streaming. Em nossa opinião, o desfecho mais provável é uma divisão, não um nocaute.
A Record só é a perdedora se você forçar a vista
A tese de que a Record perde é tentadora, e é aí que teríamos cuidado. O próprio RD1 diz que não é correto afirmar que a Record perdeu uma disputa específica nem que a Globo já garantiu os direitos. A Record não está entre as empresas citadas como convidadas a apresentar propostas nas reportagens que analisamos.
Para nós, a perda real, se houver, é uma irrelevância lenta. A Record exibiu os Jogos de 2011 a 2019 e, até onde as reportagens mostram, não faz parte da conversa de hoje. Ela não foi derrotada em uma concorrência: ficou fora do quadro enquanto o mercado se reprecificava. Se esse é o padrão, a TV aberta não está morrendo, mas a versão sem estratégia de streaming talvez esteja.
Veredicto
Vale acompanhar duas coisas antes do fim do ano, quando a venda deve ser definida: se a Panam Sports confirma a divisão entre Globo e COB, e se a CazéTV ainda fica com uma fatia. Se ficar, a história não é que a Globo bateu o streamer. É que a Globo agora precisa dele, e essa é a mudança maior. Para o torcedor, o melhor resultado é o menos emocionante: acesso gratuito nas duas telas, com o ciclo olímpico finalmente tratado como produto.
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