Rettig tem razão sobre o Man City em princípio, mas erra na prática
O chefe da DFB quer tirar a licença e todos os títulos do Man City. O instinto está certo, mas uma punição máxima é improvável e pode minar as regras que pretende proteger.
Foto: Chris Morgan / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)
Quando um dirigente de alto escalão do futebol alemão recorre à expressão "Super-GAB", o maior caso de fraude imaginável, isso diz muito sobre o pouco crédito que ele dá a um desfecho comum. Para nós, essa frustração é a verdadeira história, mais do que a retórica.
Veja o que aconteceu. Segundo a Reuters, o City foi considerado culpado em todas as acusações, menos uma, das 115 apresentadas, e a expectativa é de recurso. As acusações abrangem de 2009 a 2018 e, de acordo com a Spiegel, o clube teria prestado informações falsas sobre suas finanças e inflado a receita de patrocínios. Agora, o diretor-geral da DFB, Andreas Rettig, que deixa o cargo no fim do ano, disse à Kicker que quer que a Uefa "mostre as garras" e aplique a pena máxima: "cassação da licença e perda de todos os títulos".
A raiva é justificada, porque regras sem dentes são apenas sugestões
O argumento central de Rettig é difícil de descartar. Ele diz que o City pisoteou o princípio de gastar apenas o que as receitas atribuíveis geram. Esse princípio é o objetivo inteiro da regulação financeira. Se um clube pode ser considerado culpado em 114 acusações e as consequências se resumem a uma multa e um dar de ombros, todos os outros clubes aprendem a mesma lição: cumprir as regras é opcional, e litigar é um item do orçamento.
A nosso ver, o momento também importa. O veredicto saiu no fim de setembro, e o acompanhamento em tempo real do ran observa que uma decisão final ainda pode levar meses. Ninguém na Alemanha precisa ser rival para achar essa espera sem prazo incômoda. A confiança em um processo se desgasta a cada mês que ele se arrasta sem consequências.
Mas apagar tudo é a punição com menos chance de sobreviver ao contato com a realidade
É aqui que discordamos de Rettig. Tirar todos os títulos e cassar a licença soa limpo num pódio, mas achamos que seria um campo minado jurídico e logístico. Um recurso já é esperado. Uma pena que apague uma década de resultados provavelmente atrairia a contestação mais agressiva possível, e qualquer fragilidade processual viraria a saída de emergência do clube. A punição mais dura tende a ser a mais fácil de derrubar.
Vale notar também que Rettig apela à Uefa, enquanto o veredicto de culpa saiu do processo da própria Premier League. Suspeitamos que essa diferença seja deliberada, mas essa é a nossa leitura, não algo que ele diga. A reportagem da Spiegel afirma que uma forte perda de pontos, que significaria o rebaixamento para a Championship, é atualmente a pena esperada. Isso é uma projeção, não uma decisão, e a trataríamos com cautela. Mas, se até essa faixa está em discussão, uma sanção crível não exige a opção nuclear.
Há ainda um problema de justiça. Rettig descreve o City como apenas "a ponta mais visível do iceberg". Se isso é verdade, a execução simbólica de um único clube é bode expiatório, não reforma. Punir o City com dureza e deixar intocado o sistema que tornou isso possível teria cara de justiça e não mudaria nada.
O sermão sobre o 50+1 é a parte menos convincente
Rettig aproveitou o momento para defender a regra alemã do 50+1 e atacar o RB Leipzig, chamando suas origens de "clara burla". Tudo bem, esse é o trabalho e a opinião dele. Mas, como argumento sobre o City, é forçado. A estrutura de propriedade não redigiu os supostos contratos de patrocínio; quem os redigiu foram pessoas que violaram as regras. Os clubes alemães também têm respaldo corporativo, e o próprio Rettig cita Leverkusen e Wolfsburg na mesma frase. Usar um caso de fraude financeira para resolver uma briga doméstica de governança dilui seu ponto mais forte.
Nosso veredicto
Rettig tem razão ao dizer que a sanção precisa doer e que a credibilidade está em jogo. Provavelmente erra ao achar que o caminho de todos os títulos e sem licença é viável ou sensato. O melhor desfecho é uma pena severa e defensável, que realmente sobreviva ao recurso, como uma grande perda de pontos acompanhada de um recado claro de que reincidentes enfrentarão mais. Uma punição aplicada vale mais do que uma perfeita que é derrubada. Para quem acompanha de fora da Inglaterra, o teste é simples: se a sanção final for mais leve do que as conclusões, espere mais vozes como a de Rettig, e espere que tenham razão em algum ponto.
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