A China tirou a LaLiga do ar por causa de uma piada. Planeje um mundo sem ela
Os pedidos de desculpas de Mbappé, do Real Madrid e da LaLiga não encerraram a irritação. A crise mostra que as ligas alugam o acesso a um mercado que nunca controlam e devem se planejar para isso.
Imagem gerada por IA
Quanto vale um contrato de transmissão se um único trecho de podcast pode desligá-lo? Essa é a pergunta que a LaLiga deveria se fazer esta semana, e é bem mais incômoda do que "com que rapidez podemos pedir desculpas?".
Os fatos são curtos. Em um trecho do podcast "The Bridge", Kylian Mbappé disse que o meme que mais o fez rir foi um que o ligava ao que ele acredita ser um ditador chinês, aparente referência a montagens que colocam o rosto dele em imagens de Mao Zedong. O trecho é de abril, mas só viralizou seis meses depois. Segundo a AFP via Boursorama, Dongpeng, Mengniu e Milkground romperam os vínculos, e o grupo de emissoras estatais CMG suspendeu os jogos do campeonato espanhol, além de todas as partidas e publicidades envolvendo o jogador.
Mbappé pediu desculpas, a LaLiga pediu desculpas e o Real Madrid também. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China disse que Pequim leva a sério o pedido de desculpas dele. Ainda assim, nas reportagens que vimos, a suspensão não foi suspensa, e a cobertura fala de uma irritação que não diminuiu.
O pedido de desculpas é a oferta inicial, não o acordo
Observe o que foi punido e o que não foi. Mbappé fez o comentário. A liga, não. Mesmo assim, a liga perdeu sua janela de transmissão. Na nossa visão, isso mostra que o apagão nunca foi realmente sobre responsabilização. Foi para mostrar que o acesso é condicional e que quem é punido é quem está mais exposto.
Os pedidos de desculpas também tinham uma característica constrangedora: quase ninguém na China consegue ler o que ele de fato disse. A AFP relata que os comentários originais não foram publicados, ou foram apagados, nas redes sociais chinesas, e a mídia estatal se refere apenas a comentários inadequados sobre a China. Os seguidores de suas contas no Weibo e no Xiaohongshu foram bloqueados. Quando a ofensa nem pode ser repetida, ela não pode ser resolvida com uma retratação precisa. Por isso achamos que isso não vai acabar rápido, seja qual for a esperança do presidente da federação francesa, Philippe Diallo, ao dizer que a polêmica não deveria durar.
A LaLiga vende acesso, e o acesso é emprestado
Por anos, o argumento das grandes ligas foi simples: enormes audiências no exterior, especialmente na China, justificam turnês internacionais, horários de jogo adaptados e orçamentos de marketing. É um argumento razoável. Mas o público chega por uma porta que outra pessoa controla. A popularidade do futebol lá é real, já que Mbappé tem um milhão de seguidores no Weibo, mas popularidade não é propriedade.
O padrão não é novo. A AFP observa que outros grandes atletas enfrentaram forte reação por comentários sobre o presidente Xi Jinping, Taiwan ou Hong Kong. Acrescentamos nossa própria leitura: esses precedentes não são alertas sobre jogadores individuais. São um risco ao modelo de negócios. Qualquer liga que obtenha receita relevante ali terceirizou uma parte do seu fluxo de caixa para um humor político.
E note quem continua ao alcance: produtos não oficiais de Mbappé ainda podem ser comprados no Taobao, segundo a AFP. O interesse dos fãs não desapareceu. O canal oficial e monetizável, sim. Essa é exatamente a diferença entre audiência e mercado.
O que a LaLiga deve fazer agora
Primeiro, parar de tratar a China como cenário-base nas projeções de receita. Tratá-la como um ganho extra que pode desaparecer em poucas horas, o que, pelas evidências, pode acontecer. Segundo, construir relações com o público que sejam suas: streaming direto, dados, comunidades no nível dos clubes, e não apenas direitos vendidos a um único intermediário ligado ao Estado. Terceiro, aceitar que os jogadores dirão coisas e que o media training não cobre um trecho de podcast gravado em abril e requentado seis meses depois.
Nosso veredicto: a LaLiga acertou ao pedir desculpas, porque o custo do silêncio era maior. Mas não deve confundir um pedido de desculpas com uma solução. Se a China voltar, ótimo, e provavelmente voltará em algum momento. Contudo, a liga acaba de aprender quanto vale de verdade um cobiçado público no exterior: exatamente o que outra pessoa decidir, em qualquer dia. Planeje-se para o dia em que ele não voltar.
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