LaLiga tratou a morte de um jogador como problema de calendário, e os jogadores têm razão
Adiar só as partidas diretamente atingidas pela morte de Jesús de Miguel, enquanto o resto segue, diz aos jogadores que o luto deles tem de caber no calendário. Uma pausa maior era a decisão certa.
Imagem gerada por IA
O que é preciso para um campeonato parar? Um jogador desaba em campo, morre horas depois, e um sindicato que fala por atletas de todas as divisões diz que eles não conseguem jogar? Pelo visto, não basta. A LaLiga decidiu manter o fim de semana e, na nossa opinião, leu mal o momento.
O que foi decidido
Jesús de Miguel, atacante do Tenerife de 30 anos, morreu após se chocar com o goleiro do Andorra, Jesús Owono, em um jogo da segunda divisão na segunda-feira. Como informa o The Guardian, uma autópsia preliminar apontou commotio cordis, um trauma no peito. A federação espanhola cancelou os jogos da Copa del Rey.
Na quinta-feira, o sindicato dos jogadores, a AFE, pediu o adiamento de todas as partidas do fim de semana. Jogadores "de todas as categorias" acreditavam "unanimemente" que elas não deveriam ser disputadas, afirmou. A LaLiga recusou. Os jogos acontecerão com homenagens, incluindo um minuto de silêncio e atletas entrando em campo com a camisa 9, enquanto um punhado de partidas é adiado. A imprensa espanhola diverge sobre o número: o El Confidencial cita três jogos, e o laSexta fala em quatro. Não vamos fingir que resolvemos isso. O princípio é o mesmo nos dois casos.
Homenagem não é pausa
Um minuto de silêncio é o gesto mais barato do esporte. Custa sessenta segundos e não mexe na grade de transmissão. Pedir que os jogadores o observem e depois corram por noventa minutos é muito diferente de perguntar se eles conseguem jogar.
O texto do sindicato é difícil de descartar: disse que não havia "condições psicológicas e humanas" para a competição ser disputada em circunstâncias normais. Isso não é militância. São pessoas que viram um colega morrer depois de um lance em campo. O Guardian cita Raphinha, que disse: "Tenho a mesma idade." Esse é o ponto: poderia ter acontecido com qualquer um, por isso achamos que todo jogador na Espanha se reconhece nisso.
Também vale lembrar quem era De Miguel. Não uma estrela, segundo o Guardian, mas um jogador rodado em clubes modestos que era, ele mesmo, filiado à AFE. A liga está dizendo ao sindicato que um dos seus não vale um fim de semana.
O argumento do calendário é mais fraco do que parece
A defesa óbvia é logística: compromissos de transmissão, tabela, calendário apertado. Não podemos saber o que pesou na decisão, porque a documentação não diz. Mas a AFE pediu expressamente às autoridades que colocassem as pessoas à frente dos interesses esportivos e econômicos, e o resultado nos parece o oposto.
Pense no precedente criado nesta mesma semana. Jogos da Copa foram cancelados, e as partidas dos dois clubes envolvidos foram adiadas. Ou seja, a liga aceita que o luto justifica uma pausa. Só traça o limite no ponto em que isso começa a custar dinheiro. É isso que queremos dizer com tratar o luto como incômodo: negociável e dimensionado conforme o calendário.
Há um contra-argumento que levamos a sério. A família pediu privacidade e silêncio, não necessariamente uma paralisação, e o futebol pode honrar um homem reunindo as pessoas. Muita gente do esporte fez exatamente isso no funeral. Mas quem é mandado a campo são os jogadores, não a família, e eles disseram não. Ouvi-los era o mínimo.
Como seria uma resposta melhor
Pensamos que um único fim de semana custaria muito pouco à liga a longo prazo. Adiar a rodada, fazer as homenagens nos jogos remarcados e permitir que os jogadores, se quiserem, compareçam à cerimônia em memória planejada pelo Tenerife. Isso teria mostrado que o futebol pode parar quando está assustado e de luto.
Nosso veredito: a LaLiga estava dentro de seus direitos e errou no mérito. Os jogos serão disputados, a camisa 9 será homenageada e o silêncio será respeitado. Os jogadores pediram algo mais difícil de dar: tempo. Deveriam ter recebido.
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