A falha tecnológica da Serie A expôs um problema maior que o VAR
O caso Pongracic não foi apenas uma falha técnica: revelou uma liga sem uma hierarquia clara e confiável para decisões quando a arbitragem automatizada deixa de funcionar.
Imagem gerada por IA
Uma espera de quatro minutos pode ser defendida como cautela. O que a Serie A não consegue defender facilmente é o que veio depois: uma decisão decisiva baseada em um processo alternativo que deixou o clube afetado inconformado e o público perguntando quem, exatamente, estava no comando. O gol de empate de Pongracic anulado não foi apenas uma falha tecnológica. Foi uma falha de gestão à espera de ser exposta.
Na partida da Fiorentina contra o Como, Marin Pongracic pareceu marcar o gol de empate nos minutos finais, mas o gol acabou anulado por impedimento após vários minutos de checagens. A Lega Serie A reconheceu posteriormente que a tecnologia avançada para detectar impedimentos não havia funcionado e que os árbitros tinham usado uma grade desenhada manualmente, o método de recurso permitido pelas leis do jogo da FIFA. A ANSA informou que a Fiorentina continuava insatisfeita e planejava levar o caso à FIGC.
Essa sequência importa porque a arbitragem moderna vende mais do que precisão. Ela vende uma promessa institucional: a decisão está sendo tomada por meio de um processo controlado e reproduzível. Quando a tecnologia falhou, a Serie A precisava demonstrar que o processo continuava sob controle. Em vez disso, o público viu demora, incerteza e um clube exigindo uma explicação mais completa.
Um plano alternativo não basta se ninguém confia nele
A defesa mais forte da decisão também é a mais simples: a tecnologia pode falhar, e as leis do jogo já preveem a intervenção manual. O Goal.com informou que os árbitros passaram bem mais de cinco minutos analisando o lance porque a equipe do VAR não conseguia chegar a uma resposta com o sistema semiautomatizado e, então, recorreu a linhas de impedimento traçadas manualmente.
Isso pode ser suficiente do ponto de vista jurídico. Não é automaticamente convincente.
A distinção é crucial. Um procedimento alternativo pode ser válido sem ser confiável. A credibilidade depende de clubes, árbitros e torcedores entenderem quando ele é acionado, que evidências exige, quem as verifica e como a decisão final é comunicada. Neste caso, a demora visível fez o método manual parecer menos uma contingência planejada e mais uma improvisação de emergência.
Precisamos ter cuidado para não fingir que uma checagem longa prova que a decisão final estava errada. A documentação disponível não estabelece isso. Mas ela estabelece algo quase tão importante: a tecnologia falhou, o sistema manual foi usado e a Fiorentina não considerou a explicação adequada. Essa distância entre cumprir o procedimento e conquistar confiança institucional é onde os problemas de gestão crescem.
A Serie A expandiu o uso da tecnologia mais rápido do que esclareceu a autoridade
O momento torna o episódio ainda mais revelador. A Serie A iniciou a temporada 2026-27 com uma estrutura de arbitragem ampliada. O VAR pode intervir em decisões claramente erradas sobre escanteios antes da retomada da partida e revisar um segundo cartão amarelo aplicado equivocadamente. A liga também introduziu limites mais rígidos para substituições, cobranças de lateral, tiros de meta e o retorno de jogadores após atendimento médico.
Essas mudanças apontam em direções opostas. Por um lado, a Serie A quer intervenções mais precisas quando um erro pode alterar uma partida. Por outro, quer menos interrupções e mais autoridade para o árbitro em campo. A La Gazzetta dello Sport informou que o tempo médio de jogo efetivo havia subido para 59'14'', contra 54'20'' na temporada anterior, enquanto a nova abordagem enfatizava menos interrupções do VAR.
É uma ambição razoável. Mas, quanto mais responsabilidades são atribuídas à tecnologia, mais explícita precisa ser a hierarquia quando ela não está disponível. O árbitro em campo recupera plena autoridade? A equipe do VAR continua com uma reconstrução manual? Existe um supervisor técnico separado? A liga publica as imagens relevantes e a comunicação entre os árbitros depois do lance?
O caso Pongracic não revelou nenhuma resposta pública convincente para essas perguntas. Uma competição não pode exigir que os torcedores aceitem a tecnologia como autoridade final e, depois, mudar silenciosamente o padrão quando o sistema falha.
A transparência não pode terminar em “o procedimento foi seguido”
A resposta da Lega teria feito referência às imagens fornecidas pelo VAR e reconhecido tanto a falha quanto o uso da grade desenhada manualmente. A Fiorentina também solicitou as conversas do VAR; a liga disse que encaminharia o pedido ao Procurador Federal porque as gravações pertencem à FIGC.
Essa cadeia de responsabilidade pode explicar por que as conversas não foram divulgadas imediatamente. Ela não resolve a questão da transparência. Em uma decisão esportiva de alto impacto, o público precisa de mais do que uma declaração de que o procedimento correto foi seguido. Precisa de um relato compreensível do próprio procedimento.
Isso é especialmente importante porque as reformas mais amplas da temporada dependem da aceitação do público. Uma contagem regressiva de cinco segundos ou um limite de dez segundos para substituições é fácil de entender: a regra é visível, imediata e relativamente simples de fiscalizar. Uma reconstrução de impedimento depois que um sistema automatizado falha é diferente. Ela envolve evidências técnicas que a maioria dos espectadores não consegue avaliar de forma independente. Por isso, a explicação, e não apenas a aplicação da regra, também se torna parte dela.
A Serie A deveria publicar um protocolo claro para falhas antes que surja a próxima controvérsia. Deveria definir o gatilho para abandonar o sistema automatizado, identificar quem tem a autoridade final, preservar as imagens relevantes e disponibilizar a comunicação por meio do processo adequado da federação. Também deveria explicar como os clubes são orientados quando o método alternativo é usado. A liga já realiza reuniões de pré-temporada para explicar as diretrizes de arbitragem; um protocolo para falhas tecnológicas deveria fazer parte desse mesmo esforço de formação.
O verdadeiro vencedor deveria ser um regulamento que sobreviva à falha
Existe uma tentação de apresentar isso como uma disputa entre a Fiorentina e o árbitro, ou como mais uma discussão a favor ou contra o VAR. Essa abordagem é limitada demais. A verdadeira questão é saber se a Serie A construiu um sistema de arbitragem que continua legítimo quando sua ferramenta mais avançada deixa de funcionar.
Na nossa avaliação, a Serie A ainda não conseguiu demonstrar isso. O uso de uma grade desenhada manualmente pode ter sido permitido, e a decisão de impedimento pode, em última análise, ter sido correta. Nenhum dos dois pontos responde à questão de gestão criada pela espera de quatro minutos e pela demanda ainda não resolvida por evidências mais completas.
A tecnologia deveria reduzir a incerteza, não transferi-la do campo para a sala de controle. A Serie A investiu em um jogo mais rápido e em uma autoridade mais ampla para o vídeo; agora precisa investir nas regras para lidar com as falhas. Até que clubes e torcedores saibam exatamente quem decide, quais evidências são consideradas e como a explicação será apresentada, toda falha parecerá uma exceção improvisada. Isso não é precisão. É uma autoridade pedindo confiança sem mostrar como chegou à decisão.
Ainda não há temas: abra o primeiro.
Mais matérias
A reformulação defensiva da Inter é a última chance de Chivu parar de experimentar
Seis gols sofridos em dois jogos da Champions League transformaram as mudanças defensivas da Inter em um teste da identidade de Chivu, não apenas em mais um ajuste tático.
O marco de Yaya Touré é maior que um feito inédito na Champions
Touré abriu uma porta que treinadores africanos não deveriam levar décadas para alcançar — mas o simbolismo só vale se o Slovan lhe der autoridade e apoio reais.
A ascensão de Rio Ngumoha no Liverpool vale mais que o hype
A noite de Ngumoha na Champions League revelou um ativo valioso ao Liverpool: um adolescente capaz de mudar o rumo das partidas, desde que o desenvolvimento dite o ritmo — não o mercado.
O problema de Kvaratskhelia no PSG é o preço de virar jogador de sistema
Kvaratskhelia não está simplesmente fora de forma: o PSG precisa decidir se a estrutura exigente de Luis Enrique consegue abrir espaço para um astro que muda jogos seletivamente.



