O boom das SAFs no Brasil tem um problema de pagamentos, e só punição de verdade resolve
Treze dos 20 clubes do Brasileirão têm obrigações em atraso. As novas estruturas empresariais trouxeram dinheiro, não disciplina, e o crescimento da liga parece frágil sem punição real.
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O Brasil reescreveu suas leis do futebol, recebeu donos estrangeiros e construiu a sexta liga mais rica do mundo em receita operacional. Então por que mais da metade dos clubes da elite não consegue pagar as contas em dia?
Essa é a pergunta incômoda por trás dos números mais recentes. Segundo a Folha de S.Paulo, 13 dos 20 clubes do Brasileirão têm compromissos em atraso, com base em dados até junho de 2026 da agência nacional de regulação do futebol. Uma reportagem do UOL sobre a agência criada pela CBF contabiliza 12 clubes da Série A com atrasos documentados, então o total exato depende de quem conta e de como conta. De qualquer forma, é maioria.
Para nós, a manchete importa menos do que o padrão por trás dela. A era das SAFs foi vendida como a cura. Os dados sugerem que foi uma transfusão.
A SAF trouxe dinheiro, não disciplina
A Lei da SAF, de 2021, permitiu que os clubes virassem empresas, transferissem passivos antigos para um processo centralizado e emitissem debêntures. O capital novo de fato chegou. Mas um resumo do Valor International sobre um levantamento da Sports Value constatou que os 11 maiores clubes SAF ou sociedades limitadas tiveram, juntos, prejuízo líquido de R$ 1,04 bilhão em 2024, cerca de sete vezes o prejuízo de R$ 141 milhões de 2023. Apenas uma das 10 SAFs analisadas teve lucro, e mais da metade de sua receita veio da venda de jogadores.
O Atlético Mineiro é o exemplo de alerta. O clube registrou recorde de R$ 674 milhões em receita bruta e ainda assim perdeu R$ 299,4 milhões, com a folha salarial sozinha acima de meio bilhão de reais. O problema não é a receita. É o gasto que a ultrapassa.
É isso que o pessoal do "modelo empresarial resolve tudo" insiste em não enxergar. Uma estrutura de empresa muda quem é o dono do clube. Não muda a decisão do dono de gastar mais do que o clube arrecada. Como argumenta o Football Benchmark, o dinheiro de novos donos, de contratos de TV e de patrocinadores de apostas impulsionou uma alta forte de salários e valores de transferências, enquanto a mudança cultural esperada na tomada de decisões nunca veio. Concordamos com esse diagnóstico.
Regra sem dente é só papelada
O Brasil agora tem um regulador, e o mérito é dele. Mas olhe o cronograma. A Globo informou que as regras dão um prazo de transição até 30 de novembro de 2026 para dívidas antigas, e até lá a única sanção é uma advertência. A Globo também informou que 24 clubes estão na mira da agência à medida que o prazo se aproxima. Alguns enfrentam ameaça de proibição de contratar.
Um período de carência é razoável quando se herda uma bagunça. O risco está no que acontece em 1º de dezembro. Se a primeira leva de punições for suavizada, negociada ou adiada, todo clube vai aprender que prazo é sugestão. O próprio fair play financeiro europeu, como lembra a Sports Value, sofreu muitos "dribles", como patrocínios inflados por empresas ligadas aos donos. O Brasil não deveria presumir que será mais esperto do que os clubes que regula.
Na nossa visão, a proibição de registrar jogadores é a ferramenta certa. Ela atinge a única coisa que os donos realmente querem: poder comprar. Advertências não fazem isso.
Os verdadeiros vencedores são os clubes que fizeram do jeito chato
Nem todo mundo está se afogando. O Football Benchmark aponta Flamengo e Palmeiras, que construíram modelos de receita mais sólidos e reduziram a dívida por meio de administração estruturada, sem nenhuma liga forçando. Os dados da Sports Value também mostram o Palmeiras entre os poucos clubes com custos de futebol iguais ou inferiores ao limite seguro de 73%, contra uma média de 81% do Top 20.
Essa é a lição de verdade. Boa gestão venceu o formato empresarial. A receita operacional média da liga subiu 73% entre 2015 e 2024, o que é crescimento genuíno. Mas crescimento construído sobre salários que os clubes não conseguem pagar é uma aposta de que patrocinadores, dinheiro de TV e venda de jogadores nunca vão oscilar.
Nosso veredito
O modelo SAF não é o vilão, e a nova agência não é uma jogada de marketing. Mas nenhum dos dois é solução sozinho. Se o prazo de 30 de novembro gerar consequências reais e visíveis para um grande nome, o número de 13 em 20 pode virar um ponto de virada. Se terminar em mais uma prorrogação, o futebol brasileiro terá um regulador no papel e os mesmos velhos hábitos na prática.
O torcedor deveria olhar para uma coisa em dezembro: não quem contrata uma estrela, mas quem está autorizado a contratar.
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